Uma segunda qualquer (Português)

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Uma segunda qualquer

cc3adtricos-por-todas-partes-15É um dia ensolarado de inverno. Saio ao jardim. Me impressiona como o limoeiro cresceu, a copa supera o telhado do gazebo. Me sento na mureta do tanque, sei que é meu lugar preferido. Vejo os tordos se perseguindo pela grama. É a única coisa que se mexe. Não consigo lembrar quando plantei o limoeiro. Não lembro por que estou aqui. Sei que é segunda-feira mas não sei como sei, nem o que isso pode significar. Estou usando jeans, uns tênis surrados e um casaco cinza. Meu corpo dói um pouco, especialmente as costas. Dói como se tivesse feito um grande esforço. Daqui vejo a casa. Há uma porta entreaberta, certamente a deixei assim quando saí ao jardim. Vejo parte de uma geladeira e a metade de uma mesa, pode ser a cozinha. Deveria entrar novamente, ou pelo menos deveria fechá-la, mas não posso. Me dá medo. Aqui estou bem.

Alguém fechou a porta da cozinha. Me sinto aliviado, ninguém entrou no jardim. O sol está quase a pino, isso acontece ao meio-dia, não sinto mais frio. Dentro da casa há música. Tento pensar quem pode estar escutando rádio mas não me lembro de nada. Não posso entrar, poderiam me perguntar o que estou fazendo no jardim e não saberia o que responder. O telefone toca, uma mulher atende. Escuto o que diz:

— Saiu cedo.

— …

— Espera, vou ver se o carro está aqui.

Há um silêncio e depois a mesma voz responde.

— O carro está na garagem, não sei o que pode ter acontecido com ele.

A porta da cozinha se abre. Uma mulher mais velha grita. “Ricardo, você está aí?” Me pergunto se eu seria o Ricardo. Me levanto e me aproximo.

— O que está fazendo aqui ainda? Estão te ligando do escritório.

Atrás dela, vejo um telefone sem fio sobre a mesa. Avanço até ele e atendo.

— Alô.

— Senhor Álvarez, vai demorar muito? Os auditores estão esperando o senhor.

— Não, já estou indo para aí. — Aonde será que devo ir? Para que será que estão me esperando?

— Vou tomar um banho.

Fico olhando a mulher. Espero que me indique o caminho. Evidentemente, de algo me lembro porque penso que devo tomar um banho.

Há uma escada, subo. Vou para a direita, mas esse não é o quarto certo, tem alguém dormindo. Me dirijo ao outro, deve ser este, tem uma cama de casal, um banheiro e um closet. Devo estar casado, penso, a mulher lá de baixo deve ser minha esposa. Entro no banheiro. Me olho no espelho. Eu também sou um homem mais velho, meu cabelo está quase branco. É estranho porque me sentia muito mais jovem. Tiro a roupa e entro na ducha. Imagino que com a água quente talvez tudo passe. Mas não passa. Não encontro a forma de dizer a esta senhora que não me lembro de nada. No banheiro há utensílios de barbear, me barbeio. Vejo que tenho uma grande cicatriz no peito. Olho para ela e percebo vagamente uma grande dor. Sei que não faz muito tempo que aconteceu, mas nada mais. Me visto com o que me parece melhor. Desço.

— Vai tomar café? — pergunta a mulher.

— Não, estou com pressa.

Me dirijo a algum lugar e logo descubro a escada. A garagem deve estar lá em baixo. Ligo o carro. Sobre o painel há um controle, eu o aciono e as portas se abrem.

É melhor não pensar, quando deixo o corpo seguir seus hábitos, encontro como fazer as coisas. Percebo que não me despedi da mulher, minha esposa, e ela não disse nada. Que tipo de relacionamento temos? O carro segue por alguns quarteirões e sobe a uma via expressa. Me esforço em não pensar para não me equivocar. Quando entro na garagem, o homem da guarita vem estacionar o carro.

— Bom dia, senhor Álvarez.

— Bom dia — respondo e olho para todos os lados até descobrir a porta aberta de um elevador.

Estou diante do painel, o edifício tem 17 andares. Fecho os olhos e aperto um botão. Abro os olhos, as luzes LED se acendem no visor, enquanto o elevador vai percorrendo os andares. Ele se detém no décimo andar. Desço me perguntando aonde ir. Reconheço vagamente o corredor com o escritório no fundo. Uma jovem recepcionista me cumprimenta e se aproxima.

— Deixei os auditores entrarem, a Nélida está com eles. Eu disse que o senhor não se sentia bem. É lógico depois de…

Olho para ela com vontade de perguntar “depois de quê?”. Ela levanta as sobrancelhas, também não entendo por quê.

— Obrigado — digo, quase chamando-a de Mercedes, mas me contenho com medo de me enganar.

A mesa de reuniões está coberta de pastas e papeis. Dois homens os estão analisando. Uma mulher de uns quarenta anos está sentada à esquerda deles, deve ser a Nélida. Cumprimento e me sento ao seu lado.

— O que aconteceu? — me repreende em voz baixa.

— Estava mal, meu peito doía.

— Ligou para o médico?

— Sim, mas ele disse que não era nada.

Em algumas horas começo a entender. Sou o diretor dessa empresa, o que me produz uma certa alegria. A empresa é uma construtora e está irremediavelmente falida. Descubro que Nélida é a contadora. Não sei que relação me une a ela, me trata com muita familiaridade.

Quando os auditores vão embora, fico preocupado. Pesa sobre nós um processo por fraude fiscal que terminará com minha pessoa na cadeia. Penso na imagem que vi no espelho e calculo que não me resta muito tempo para desperdiçar. Nélida me propõe ir beber alguma coisa. Percebo que estou com fome, vontade de comer. Peço um misto-quente. Na cafeteria, ela fala sobre a minha família, assim me descubro que tenho dois filhos. Parece que um está na Espanha e que o mais novo é um problema. Deve ser o que estava dormindo no outro quarto. Definitivamente, não temos nada além de uma relação amistosa. Me tranquilizo, certamente é melhor assim.

Passo o resto da tarde no escritório. Recebo ligações. É incrível como posso seguir a corrente sem que as pessoas percebam que não sei quem são, nem de que estamos falando. Às seis já estou sozinho. Todos foram embora. Espero uma hora. Reviso minha mesa. Há uma agenda. Não tiro nada a limpo com os nomes e números. Estou cansado. Deveria ir embora. Durante a volta há um terrível engarrafamento. Demoro quase duas horas para chegar. Fico surpreso, de manhã demorei só quarenta e cinco minutos. Minha cabeça dói.

Quando chego em casa, minha casa, ninguém está. Troco de roupa. Ponho a mesma roupa de hoje de manhã. Vou ao jardim. Está de noite, faz um bom frio. Um gato cinza passa correndo na minha frente, sobe no limoeiro e pula o muro da casa vizinha. Me sento no banco dos fundos. As lembranças do dia começam a se apagar.

Tradução: Lucas Henrique de Paula